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quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Oração do meio dia

Do Recortes

Com o sol a pino, ali estava eu de joelhos entre os bancos. Não havia mais ninguém. Não sei se, em meio a tanta conversa, só eu prestava atenção aos avisos na reunião de domingo. O pastor já estava acostumado a me ceder a chave do templo, a oração de meio dia não tinha dirigente. Eram os meus primeiros passos na fé. Tudo era tão novo, sentia-me tão sedento de conhecer mais a Deus. Naqueles minutos de joelhos, com palavras que teimavam em não sair direito, as vezes me pegava cochilando. Levantava, lia a Bíblia, nem sempre compreendia, ficava em silêncio por muito tempo. O pensamento ia longe. Era acometido de uma paz singular.                         

Ainda não tinha trabalho, a leitura da Bíblia me arrebatava. Chegava a ler vários livros por dia, mas gostava mesmo de reler. E foi assim, nesses momentos de leitura tão particular, nas orações interrompidas pelo silêncio de quem não sabia o que dizer a Deus, na voz desafinada que insistia em entoar um cântico às escondidas, que fui aprendendo a viver como cristão. Mas, lamentavelmente, as coisas não seriam assim pra sempre.

Foi faltando irrigação no meu jardim do Éden. A convivência com outros crentes me fizera ignorar certas verdades. - Será que a igreja me desviou do caminho? Fui me deixando influenciar por sua apatia, fui me tornando instável. Tudo se tornou tão repetitivo e agora eu penso que sei das coisas.

Fui me perdendo na senda do evangelicalismo barato dos cristãos nominais de minha comunidade. Sim, acho que a igreja realmente me afastou de Deus. E penso que os ateus de hoje não nascem nas aulas de filosofia nas universidades, como me advertiam quando passei no vestibular, nem nos centros de pesquisa cientificas, ou dificilmente em outros lugares, mas dentro da própria igreja. Sinto vergonha de dizer isso, mas é uma realidade. E sempre que alguém esperar da igreja, mas do que ela é, beberá do cálice amargo do desengano.

Sei que alguém está pensando que é minha culpa, o velho argumento de manter os olhos no alvo correto. Não nego, nem me isento. Arrependo-me. Mas é difícil conviver entre pessoas com um vírus, sem se contaminar. Foram os meus referenciais de cristianismo que me causaram as maiores desilusões, mas com elas uma convicção de que a minha comunhão com Deus independe dos ditames de um "sacerdote". Os crentes me roubaram a fé, me ensinaram a arte da politicagem, de olhar sempre pro próprio umbigo e reivindicar direitos que nem sempre eram meus, porque a vida toda fui induzido a pensar que minha vida vã era mais valiosa que a de outrem. Minha culpa, perdão Senhor!

Agora sinto a necessidade de repensar minha fé, de me permitir percorrer outros caminhos e observar a lei de Deus sob outra perspectiva, ainda assim um aspecto que contraria a cultura em que estão arraigados alguns crentes em sua ascendência e que nunca, nunca mudarão. Preciso voltar àquela motivação inicial, àqueles velhos hábitos de leitura. Confesso, tenho lido quase nada da Palavra de Deus. O ativismo me assalta, preenche um tempo que me era precioso. E embora pareça que tudo está bem e que estou acostumado, minha alma está sedenta, mais que naquele começo. Não quero mais pensar que tenho as palavras que agradam a Deus. Talvez o Senhor ainda esteja me esperando ao meio dia e precise voltar ali e ficar outra vez em silêncio.

Direto do Recortes, nosso estimado parceiro
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